Mas olha como o mundo é. Sábado de manhã fui à igreja, coisa que sempre faço mesmo, sentei lá na minha e um francês aleatório sentou ao meu lado. Aí o cara tá lá e PÁ, é brasileiro, gente boa pra caramba, meu vizinho de bairro em São Paulo e IUPI!! Ia na Nuit Blanche com os amigos e me convidou pra ir junto. Dava pra ficar mais feliz? hein? hein? Nunca nem tinha ido na Virada paulista e ia ver a parisiense.
Nuit Blanche – “Noite Branca”, literalmente significa uma noite passada em claro. Há 10 anos a prefeitura de Paris organiza este evento que vai das 19hs de sábado até as 7hs de domingo. Além dos museus ficarem abertos a noite toda, vários pontos da cidade têm manifestações artísticas e culturais. Normalmente este evento junta muita gente, e com o clima de praia que fazia naquela semana, a última coisa que os parisienses iriam querer é ir cedo pra casa. Não sei se no resto do país acontece o mesmo, mas em Paris tem um lance muito bacana das pessoas ocuparem as ruas mesmo. Fiquei doida com o tanto de turminhas que se reúnem à noite pra conversar sentados na praça, na beira do Sena, no meio fio (e eu lá sozinha, tá rolando uma lagriminha aqui). Usar a rua como extensão da própria casa é muito saudável, te faz sentir dono e responsável por aquele espaço. Os meses de inverno fechados dentro de casa com certeza ajudam nessa vontade de aproveitar as noites quentes ao ar livre, mas vou precisar da ajuda das cartas e dos universitários que frequentam aqui pra explicar direito, porque tudo o que eu falar é palpite.
Dá oi pra galera, André!
Esses troços redondos são os crachás pra entrar no clima, ou não se perder, sei lá. Por via das dúvidas taquei o meu na roupa.
André, meu novo amigo Miojo (virou amigo em 3 minutos), já tinha combinado de passar a Nuit Blanche com os amigos do MBA , e foi mega gente boa de me convidar pra ir junto. Eu, que tava choramingando porque ia sozinha, acabei indo com a turma inteira do MBA da Renault. HA! Tudo gente firmeza. A mãe Renault custeia o MBA ou mestrado de estudantes vindos dos países onde eles tem fábricas, espertinhos (em minha defesa, André foi o único brasileiro com quem falei por mais de 1 minuto o mês inteiro, tá?).
Nos encontramos no metrô e fomos pra região de Montmartre (casa da Amélie Poulain), que é legal mesmo sem evento nenhum acontecendo.
A Sacre Coeur tambem fica lá. Montmartre é a região mais alta da cidade, tem ladeira pra tudo que é lado. Em uma das escadarias apertadas e lotadas que sobem do metrô até a igreja, demos de cara com um trio que falei em outro post, o Vague à L’âme. Esse vídeo não é do mesmo dia, mas é o mesmo buraco.
Literalmente um buraco. Fiquei doida com teatro em que eles estavam se apresentando, o “Au Petit Theátre du Bonheur“, minúsculo e lotado, uma toca de raposa no meio daquela escadaria que sobe até ó céu. Eu nem tinha notado que tinha alguma coisa ali, o André ouviu a música e me puxou pra dentro, não sei como ainda achamos dois banquinhos num cantinho. Gente, ceis não tem noção, o lugar era tão pequeno que quase pedi desculpas pro meu apartamento aqui de SP pelas vezes que o xinguei de apertado. Foi lindo, naquele calorão sem ar condicionado, o povo abanando seus perfumes franceses pra lá e pra cá e o trio pingando suas emoções sobre os instrumentos e a platéia. Gostei tanto que já saí sacudindo a mão e gritando MOI MOI MOI feito uma louca quando eles disseram que tinham só 5 cds sobrando. Hehe, ridícula, eu sei, mas consegui meu CD.
Quando entramos na toca o povo não viu, passou reto, então quando acabou continuamos a subida pela escadinha pra encontrar com eles lá em cima. Era minha primeira vez em Montmartre, eu tava muito abalada de emoção.
Tem tanta igreja naquela cidade que entrei em uma lá achando que era a porta dos fundos da Sacre Coeur, mas era a Saint Pierre de Montmartre. Ah vá, eu ia saber que tem uma do lado da outra?
A igreja medieval tava cheia, escura, só uma velas nas janelas E UM FILME projetando. Aquelas coisas que não se imagina aqui. Saca aqueles filmes de tensão que não acontece nada, mas tem criança, aí você surta de medo porque criança em filme que não seja de criança só pode dar merda? Gente, eu fecho os olhos em Game of Thrones e não assisto filme de terror por nada (só The Ring, mas é que eu tenho um carinho pela Samara). Se quiser ver, o filme é esse esquisito ai, Per Speculum, de Adrian Paci.
Saindo de lá ENFIM achamos a Sacre Coeur. Iluminada ela é ainda mais bonita. Sabe aquela escadaria que durante o dia você sobe desavisado e sempre tem um infeliz colocando uma pulseirinha no seu braço e te extorquindo? Tava cheinha das turminhas felizes, uns bebendo, uns só curtindo, amei. O povo bebe muito pela rua, mas não vi vexame em momento algum, só uns mais alegrinhos.
Logo ali do ladinho da escadaria tinha o “Tarzan Noir”, ou OS TIGRES. Gente, eu até curto arte moderna, mas tem coisa tão sem sentido que a pessoa só pode ter tido aquela ideia porque tava nas DORGAS. Não cheguei a ver o nonsense todo, mas OLHA ASIDEIA:
Sai uma procissão pela cidade, carregando 35 tigres de porcelana. Rodam, andam de metrô, rodam, pegam ônibus, rodam, cansam e botam os tigres lá sentadinhos numa arena pra descansarem. As 22hrs jogam os tigres no chão, vira tudo caco. Cabô.
…aí ficam os tigres aí, tranquilões…
No meu guiazinho diz que é “uma marcha que combina arte e utopia social”, seja lá o que isso quer dizer. Aí a gente ficou lá brincando de fazer mosaico com os caquinhos no chão (interagindo com a arte), mas sempre vinha um bêbado e pisava em tudo, desistimos do mosaico e começamos a jogar os caquinhos pra cima (vivendo a arte), aí cansou e acabou a brincadeira.
Pegamos o funiculaire pra descer, porque rebeldia é assim, você sobe a maior escadaria do planeta a pé, mas pra descer pega o bondinho. Tinha uns bêbados descendo com a gente, mas tão engraçadinhos! Me apeguei e saí cantando junto com eles, manguaça style.
Nessa hora os amigos do André já tavam no outro lado da cidade chamando a gente pra ir pra lá. Mas foi batendo fome, e não tinha churros nem galinhada do Alex Atala. Gente, que dificuldade comer naquele lugar! Aqui na virada os restaurantes e botecos passaram a noite abertos pra aproveitar o público, e em Montmartre, o bairro boêmio mais famoso da cidade, fechou tudo. Os donos tavam a fim de ir pra casa dormir e pronto.
A fome era muita, não ia dar pra chegar lá no Marais onde eles estavam não. Quase tudo fechado, acabamos achando uma birosca de churrasco grego aberta. Eu não consigo comer aquele troço em parte alguma do mundo, e era isso ou batata frita. A birosca era muito ferrada, não tinha nada. Saímos de lá, o André com o beirute de churrasco grego e eu com as batatas fritas boiando no óleo e um litrão de Fanta. FANTA, Brasil, olha o nível do glamour. Fomos fazer a ocupação das ruas, e achamos uma mini pracinha pra sentar e comer mendigo style. Um povo já tinha passado perto antes pra fazer um xixi (mendigo style), tava tudo meio fedendinho.
Isso já eram quase 3 da manhã, e quando você tá muito cansado mas quer continuar não pode sentar e encher o estômago, é suicídio. Quando acabei o óleo e a fanta eu tava quase fazendo a calçada de travesseirinho e ficando por ali mesmo. Mas fomos fortes e descemos a ladeira, ainda dispostos a encarar a segunda fase da noite com o povo.
O ânimo durou mais ou menos 5 quadras, até chegarmos no metrô. Foi quando a gente se deu conta que o lindo do metrô tava fechado, tínhamos que ir de busão. Só sei que nessa hora bateu um desânimo que a gente resolveu jogar tudo pro alto e voltar pra casa mesmo. Só que o André mora lá, se vira, é descolado. Eu, então, tava lá há uma semana. Tinha uma linha de metrô funcionando, que ligava os pontos da Nuit Blanche. Fomos com ela até o centro, e ele me mostrou no mapa onde me virar a partir dali garantindo que era seguro. Eu me borrando nas calças, mas mantendo a pose. Estava seriamente considerando ficar por ali mesmo até o sol raiar, mas o sono era muito e encarei o ônibus pela primeira vez, sozinha, no meio da madrugada.
Olha, posso ter passado muitos riscos, mas não encontrei nenhum de frente não. Desci tranquilona perto de casa, fui andando as 3 quadras até lá, passando pelas casas dos mendigos (as marquises né), todos de boa. Sorte do André, ou ele estaria com peso na consciência até hoje, hehehe.
MORAL DA HISTÓRIA – Não tem moral nenhuma, tá? Só pra dizer que se por acaso você estiver lá e for dia de Nuit Blanche, vá. E se der sorte, ache o André por lá, baita companhia boa.
MAS E A COMPARAÇÃO COM A VIRADA CULTURAL? Tem mas acabou. Vai adiantar eu ficar comparando? Não é como se alguém decidisse “este ano não vou na Virada aqui em São Paulo, acho que vou na de Paris mesmo. Faz menos sentido do que os tigres.
PS* – Gente, já não ganhei bronca do André por ter esquecido um casal gente boa pra caramba que conhecemos lá? Naquela de “deixa que a gente tira sua foto” “olha, ficou ruim, tira outra” “vixi, piscou, outra” “agora fazendo chifrinho” acabamos ficando amigos da Martine e do Gilles. Pegamos o cartão da Martine pra mandar as fotos pra eles, e quando o André mandou os fofos nos convidaram pra passar o fim de semana na casa de campo deles! ÓUNNNNNNNNN! Mas claro que isso foi na semana que eu ia embora, né, não fui.
Pronto, mais uma prova que franceses tem coração.