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Minha casinha parisiense

Quem vai estudar fora normalmente conta com a ajuda da escola na hora de arranjar um cantinho pra chamar de seu, nem que seja por uma semana. Se você é milionário provavelmente vai escolher entre passar sua temporada num flat exclusivo no 16eme, o bairro onde mora o Sarkozy, ou no Hilton, e nesse caso sua leitura acaba aqui, boa viagem. Mas pra quem não toma banho com água Perrier, basicamente existem duas opções: casa de família ou apartamento de estudantes.

Dependendo da escola e se for na época de ferias escolares, você ainda consegue ficar nos dormitórios da universidade, e de quebra mata aquela sua vontade de morar na Sorbonne, que estará meio abandonada mas ainda é a Sorbonne. Quem vai sem escola tem uma opção genial chamada  AIRBNB, o site que meus amigos europeus usam pra dormir barato quando viajam. Você consegue um quartinho honesto na casa de um francês, e procurando com calma você encontra alguns que tem entrada externa, banheiro exclusivo e  mini cozinha e ainda é pertinho de tudo. Mesma opção vale pra quem vai com família, amigos, etc, mas aí o lance é alugar um apartamento inteiro. Vale a pena, se cadastre lá e faça a festa. É o que eu faria hoje.

O que levar em conta na escolha:

Nas fotos é tudo assim…

…aí você chega lá e é igualzinho.

Quem fica em apartamento de estudantes tem um quarto individual com chave, e divide os ambientes comuns. Nesse caso seus roommates podem ser vários chineses numa semana, ninguém  na outra, um senegalês, dois alemães e um esquimó na terceira, é uma zona.

Vantagens – ninguém tá nem aí pra você, você faz o que bem entende desde que lave seu prato. Pode ser que seus roomies sejam legais, e aí você ganha amigos, já que provavelmente todos estarão na mesma situação que você, sozinhos e longe de casa.

Desvantagens – ninguém tá nem aí pra você, seus roommates podem ser um bando de malucos surtados comedores de cocô e você começa a considerar que dormir num banco de praça é melhor do que na sua cama. Mas aí acho que o seu guarda vai realmente achar você um vagabundo delinquente, e não vai estar aí que você tava carente pensando nela.

Considere que as opiniões acima são de alguém que não ficou em apartamento de estudantes, é minha percepção mas não tenho certeza de nada. Só conheci uma chinesa que ficou em um e achou estranho, mas ela era esquisita e viciada em Harry Potter,  então não conta.

Custo – Quando eu fui era a opção mais em conta, não vai ter café da manhã nem jantar incluído no preço, mas em compensação você compra o que quiser pra comer em casa (torcendo para você encontrar  roommates legais que não assaltem sua prateleira da geladeira).

Madame está sempre te olhando, mesmo quando não está.

A outra opção é casa de franceses, e o principal atrativo é ver como uma família vive realmente, e fazer parte dessa rotina ainda que por pouco tempo. Só considere que a pessoa que aluga um quarto dentro da própria casa, pra alguém que nunca viu, provavelmente é porque está precisando da grana extra, e não porque quer viver a fantástica experiência de morar com um intercambista. Então não precisa ir super animado, carregando latinhas de Guaraná nem pacotes de farofa pra essa super integração cultural que provavelmente não vai rolar, ok?

Partindo desse princípio, suas chances de ficar numa casa rycaaaahh com piscina aquecida e mordomo são bem restritas. Leve os euros pra pagar sua estadia assim que chegar e tudo estará bem pra você.

Se fizer muita, mas muita questão, leve uma lembrancinha, mas conheça a história do chinês que ficou quatro meses, fez um quadrinho fofo com uma montagem de fotos dele com o pessoal da casa e um dia depois o quadrinho tava socado na estante de livros do banheiro. #FICADICA. Eu sou a favor de mandar depois, pelo correio, caso role uma amizade sincera e verdadeira entre você e seus hosts. Eu não mandei pois senti que eles estavam interessados apenas no meu dinheiro, assim como no dinheiro do chinês.

Palpites para lembrancinhas:

CANECAS – as que madame ganhou estavam em uso na cozinha, substituindo as que os estudantes quebraram. Mas que pentelho levar um troço quebrável na mala, hein?

HAVAIANAS – se você caiu na história que Havaianas são legais no exterior e o povo baba nelas e usa pra passear, problema seu. Na França em Paris é um CHINELO DE FICAR EM CASA E LAVAR BANHEIRO, nem os hipsters eu vi usando. Talvez algum turista americano, mas eles são considerados os turistas mais bregas do planeta.

PEDRAS BRASILEIRAS, TUCANOS DE MADEIRA – Qualquer coisa que você encontre em lojinhas de turistas nos aeroportos do Brasil. Sei lá, se eles forem bregas vão gostar.

Meu quarto (esse aí ao lado, desocupado pelo chinês do quadrinho no dia anterior) era limpinho, tinha uma conexão de internet, uma escrivaninha com cadeira, um armário e uma cômoda reservados pra mim, um armário cheio de casacos deles, uma tv que nunca funcionou e um sofá cama. E um palhaço pendurado, bom pra tratar meu pavor de palhaços. E claro, o MALACAFENTO do sofá cama. Nada no mundo é pior do que dormir um mês num sofá cama, mas não se iluda que ninguém vai te contar antes, você descobre quando chegar. Ainda bem que tenho maturidade de 5 anos e levei meu travesseiro comigo, compensava o fato de acordar dentro da dobra do sofá todos os dias.

Se você for no verão se prepare pra dormir sofrendo e suando, a França ainda não foi apresentada ao ar condicionado. Mas todos os lugares são bem preparados pro frio.

Lavando as roupitchas

Se você der sorte vai poder lavar roupa na casa, já eu que sou meio desprovida desse item fui informada de que a lavanderia pública ficava a 5 quadras. Já mencionei que sou muito, mas muito mão de vaca com coisas bestas que levam seu dinheiro embora? Pois bem, ainda aqui enchi duas garrafinhas de água de coco, uma com sabão em pó e outra com amaciante, e enfiei na mala (e você achava que já tinha visto de tudo). Se você não chega ao meu nível, tem sabão em unidades individuais pra vender na lavanderia, ok? Custa €1 cada.

Acabei resolvendo que não faria sentido carregar uma pilha de roupa suja por 5 quadras pra lavar roupa na lavanderia, já que pra valer a pena os 5 euros (só lavagem, sem secar), eu teria que acumular bastante roupa, e aí nem teria o que vestir,  então minha Brastemp foi A PIA.

Sim, senhores leitores, lavei calças jeans na pia do banheiro e botei pra secar na varanda. Quando contei isso pra minha amiga australiana ela respondeu com  “que? Tá doida? Desde quando que precisa lavar calça jeans?”.

Essa técnica ancestral funciona bem no calor e no frio, já que o aquecimento é bom pra caramba e a roupa seca bonitinha no quarto. Não, não precisa transformar o ambiente no quintal da casa da sua avó, cheio de roupa no varal. Você vai usando e lavando, é pouquinho de cada vez.  Cadeiras são varais legais quando você não está sentado nelas.

Guia de alimentação

Caí no conto do “café da manhã incluído”. Não que fosse ruim, mas é limitado. Ganhei uma prateleira da geladeira, e me mostraram quais comidas das outras prateleiras eu estava autorizada a comer. Todo dia tinha pão, brioche e croissant, manteiga, iogurte, leite, café e suco. Mas ninguém prepara pra você, né, não é hotel, abra a geladeira e se vire. “Mas porque a reclamação?????” vocês devem estar se perguntando agora: porque os mercados são uma delícia de fuçar, e a dona da casa era meio sem imaginação e comprava sempre a mesma coisa. Se fosse hoje eu escolheria sem café da manhã e compraria o que eu bem entendesse. Fora o peso na consciência  que dá se você resolve tomar seu petit déjeuner num café e se sente jogando dinheiro no lixo.

Nem sonhe em escolher opção de jantar incluído, ou se verá obrigado a voltar pra casa cedo e comer o que eles quiserem pelo tempo que ficar lá, porque já pagou antecipado por essa furada e vai se odiar para todo o sempre.

Guia Glorinha Kalil de comportamento na casa de estranhos

Não ande sem calças. Meu host fez isso uma manhã, mas era casa dele então acho que ele podia se quisesse, né. Problema meu se fiquei sem graça com a situação.

Como você vai ter a chave, ninguém vai te encher o saco pra sair e voltar a hora que quiser, mas se as portas forem mega barulhentas como eram lá, cuidado pra não acordar a casa. Mas não passe por ninguém sem falar bonjour, ou sua variante bonsoir. Mesmo que esteja sem as calças.

Apesar do quarto ser seu, mantenha o mínimo de ordem e decência, vai que eles decidem entrar lá pra pegar um casaco guardado e tá tudo revirado, já pensou você, um adulto que paga suas contas, levando bronca? De um francês?

Ninguém é seu empregado, lave sua louça e tente não quebrar mais que um copo, como eu.

Não abuse, mas se precisar peça ajuda dos hosts, normalmente eles são muito gente boa. Ganhei deles um ticket do metro, pra não ficar feito louca procurando como comprar na manhã logo antes de ir pra aula pela primeira vez. Eles eram tão legais que não previ que sumiriam na noite que fui embora e precisava desesperadamente que alguém chamasse um táxi pelo telefone e me ajudasse a descer com as malas. Tudo gente escaldada com estrangeiro, tá louco.

Como já contei por aí, na casa que eu fiquei ninguém falava NADA além de francês, e as primeiras semanas foram de muita conversa. Entre eles. Mas seja simpático, coma na mesa ao invés de levar comida pro quarto (confesso, fiz várias vezes), e tente estabelecer uma conversa cordial e civilizada. Pode ser que ninguém se entenda, nesse caso fique apenas sorrindinho.

Guia do Telefone

Esse é o guia mais fuleiro de telefone que existe, já que levei o notebook pra não ter que usar nada além do Skype e em um mês usei um telefone apenas uma vez, e  ainda por cima foi pra ligar pro André, meu novo amigo brasileiro que mora em Paris. Nível de complexidade zero, e só liguei porque era ligação local e não ia precisar ficar fazendo contas do quanto tava devendo pra madame. Se puder leve um laptop amigo, eu conversei todos os dias com o Alê por Skype e isso ajudou muito a diminuir a saudade, grátis.

Pensando bem , lembro vagamente de ter ligado de um orelhão pra madame quando cheguei e tava perdida na estação do metrô, mas eu tava tão apavorada que minha mente bloqueou esse fato e não tenho a menor ideia do que se passou. Acho que sonhei.

DICAS ALEATÓRIAS

Uma certeza você tem: nunca vai faltar material de leitura pras suas horas de solidão.

– troque emails com seus hosts antes de ir, tire todas as dúvidas possíveis. Se não sabe bulhufas na língua deles, o Google Translator tá aí pra isso e te salva nessas horas.

– se for chegar de táxi, não espere que o motorista conheça o nome da rua que você vai, nem pontos de referência que pra você seriam óbvios como “fica em frente aquela academia gigante de nome x”. Imprima o mapinha da região, marque bem a rua e entregue pra ele. Google Maps tá aí pra isso.

– leve o telefone dos hosts na bolsa, óbvio. Na emergência você entra em um hotel onde provavelmente alguém vai falar inglês ou espanhol, e pede socorro.

– quando eles disserem que você terá um “banheiro no quarto”, considere que isso pode significar outra coisa, como no meu caso, que além de não ser dentro (era de frente pro quarto), não era exatamente um banheiro, era um quartinho sem janela com um vaso sanitário e uma estante de livros(???). Sem pia. Mas era todo pintado com estrelinhas no teto e solzinhos na parede, e claro que isso mais que compensa ter que lavar a mão num frasco de álcool. A má notícia é que não é exatamente anormal ter esse tipo de banheiro por lá, por mais estranho que pareça. No final do corredor ficava a salle de bains, nome muito chique pra saleta onde tem a pia e o chuveiro. O banheiro da madame tinha vaso, pia, chuveiro, banheira e a máquina de lavar que eu não podia usar. Mas a vida tá aí pra tirar a gente da zona de conforto e nos  forçar na adaptação.

minha revolução francesa rolou aí

– todo mundo é meio neurótico com economia de água, e provavelmente eles terão um aviso simpático no banheiro lembrando que o seu banho deve durar 5, ou nos casos generosos, 10 minutos. Apesar do malabarismo necessário pra segurar o chuveiro numa mão e se lavar com a outra, é possível. Melhor que banho de caneca. Eu gastava mais tempo que o permitido quando lavava o cabelo, mas fechava a água no meio do banho, e nunca reclamaram. Na primeira semana fez muito calor, e nos dias mais quentes eu subverti a ordem do sistema e tomei DOIS banhos no mesmo dia, porque sou muito rebelde. E covardona também, só fiz isso quando sabia que estava sozinha em casa.

Dúvidas, escreva pro Serviço de Atendimento ao Leitor aí embaixo.

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Categorias: Informações práticas, Vivendo como francesa | Tags: , , | 26 Comentários

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